terça-feira, 19 de outubro de 2010

Síncopes convulsivas

Eu tive um apagão. Não senti a dor, não senti meu corpo, não ouvi o som das pessoas, da sala, do lugar. Ao invés disso, ouvi outras conversas, falei com outras pessoas, estive em outro lugar.


Eu fui disassociada. Desliguei da dor, desconectei do meu corpo, não falei no ouvido das pessoas, na sala, no lugar. Ao invés disso, relatei outras ideias, debati com outras pessoas, captei outro lugar.


Eu fui repaginada. Aceitei a dor, encontrei minha alma, ouvi meu som interior, do coração, do universo. Apesar disso, ouvi crônicas simples, aceitei novas pessoas, estive em muitos lugares.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

delírios

No silêncio da noite escuto seus sussurros que me convidam pra voltar. São palavras repetidas em um tom de voz que desconheço. Tem um mescla de ternura, esperança e paixão. Elas falam de coisas velhas misturadas com assuntos que surgem, em vão.
Reconheço seus passos se eu parar e observar por onde entra a luz do sol. Vejo, pelo espaço entre a cortina e a janela, sua caminhada reta e sem direção.
Retorno ao meu encosto, livre da responsabilidade pela vida do outro. Apesar de ser dura, a verdade é uma só: aqui se planta, aqui se colhe. Por isso, colho minha solidão.

viver simples

Coisas simples da vida trazem felicidade:


Compartilhar a cozinha com minha tia;
Fazer pão caseiro;
Tomar café com os amigos;
Olhar as vitrines em um passeio socrático;
Brincar com os peixes no aquário;
Observar a mudança das cores do por do sol;
Tomar açaí com as amigas;
Caminhar no parque ouvindo o som dos passos;
Deitar na rede;
Namorar, beijar, abraçar;
Meditar ouvindo a batida do coração;
Cuidar das plantinhas;
Receber amigos em casa;
Ir ao cinema;
Pintar mandalas;
Fotografar momentos;
Ler um livro bom;
Tomar banho de cachoeira;
Caminhar na mata;
Tomar sol;
Compartilhar sonhos e ideias;
Conhecer pessoas e suas histórias;
Comer manga, melancia e jaboticaba!
Deitar no gramado;
Tomar vinho em boa companhia;
Receber uma massagem relaxante;
Fazer uma oração de agradecimento;
Dar e receber cafuné;
(...)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

em uma semente, várias

Hoje comi uma manga do pé que minha vó plantou quando eu era criança. Em cada manga, sinto a intenção que ela teve de trazer alimento, prazer e alegria para todos nós.
Vô Diva não está entre nós, mas suas sementes ficaram. Ficou sua impressão na vida da gente do que é ser guerreira, lutadora, sensível, inteligente, forte, corajosa e provedora de alegria. A mangueira é só a materialização do amor que ela nos ofereceu.
"Quem planta, colhe". Esteja onde estiver, meu amor!

euteameie.final

"Eu te amei com todo meu coração.
Não te amei por obrigação, nem por conveniência.
Muito menos, por retribuição.
Te amei porque te amava.
Porque era maior do que eu."


O amor, se fosse um verbo, não deveria ter flexão no pretérito perfeito. Muito menos, no passado.
Deveria ser um verbo que só se conjuga no presente, porque o que se sente é no agora.
Te amei, te amaria, te amo.


O amor, se fosse só sentimento, deveria ser revelado no momento em que ele é vivido.
No agora, na hora.
O amor é revelado, se não for guardado.
É fluido, se não for economizado.
É doce, se for aceito.
É dor, se for negado.


Que todos os amores não correspondidos,
virem adubo pra um novo jardim.
Que não amargue novas relações.
Que surpreenda seu próprio sentimento.
Que maltrate sua própria vontade de ser calado.
Que transforme em amor.


Ouvir eu-te-amos atrasados
não impactam corações arrasados.
Falar o que poderia ser dito no passado
é como dizer que tinha mais sorvete na geladeira
e que passei vontade à toa.


Por isso, ame hoje. Ame agora.
Retribua se se sente tocado pelo amor.
Ofereça o que tem dentro de si, 
naturalmente, se sentir feliz.
Se não, agradeça o amor do outro,
deseje seu bem
e ponto final.

sábado, 9 de outubro de 2010

a tal coragem

a vida corre devagar
entre o pio do gavião
e o barulho dos carros na avenida.
meus sonhos
escorregam pelos dedos
ilusórios, momentâneos, solitários.
estouram como bolhas de ar
ao som do não
e ao deparar com a cara da coragem:
incrédula, olhos arregalados, sem ação.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

October Rain

Enquanto dormíamos, a chuva foi chegando de mansinho nesta madrugada de outubro. Ela não veio acompanhada de trovões, relâmpagos e ventanias fortes. Procurou ser mansa, constante e refrescante. Parece que sabia o quanto foi esperada e prezou pelo precioso silêncio das águas calmas, sem alardes, pra não assustar a ninguém.


E assim chegam os amores: envolventes, serenos, constantes, necessários, presentes. Diferente das paixões, com suas ventanias fortes, trovões, espanto, encanto. (...) São intensas, fortes e passageiras, infelizmente.


Que o amor chegue nesse tom da chuva do começo de outubro.



sexta-feira, 1 de outubro de 2010

des encontros

todos estão a busca
ninguém está
a espera.

todos buscam água
ninguém pede
pra chover.

todos estão chorando
ninguém pergunta
porquê.

ninguém quer ouvir
todos querem
falar.

o mundo
parece ser feito de
des
encontros.