segunda-feira, 27 de julho de 2009
Ressaca de Silicea LM3
Sem esperanças, sem confiança
Me perdi de mim.
Alcancei meus delírios mais altos
Minhas lacunas mais vastas
Não permito seu acesso aqui.
Aqui não cantam as flores
Não despertam louvores
Nada tenho aqui.
Compreendo seu silêncio
Entendo sua frieza
Depois que me fechei
Nesta bolha invisível.
Amar, apesar das fases,
apesar das bolhas
apesar das lacunas,
da crítica fria
da não presença
da ironia
Amar quando não se diz 'amor'
Quando insistimos, pedimos
Amor!
Não, não.
Prefiro ficar aqui
Na bolha tem morfina.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
sentidos

O que eu sou não lhe importa. É o que eu quero que te intriga. São minhas palavras de ação, são meus poros abertos, é meu cabelo molhado e meu jeito de sapeca.
O que eu penso não importa. Já passam as horas faz tempo. O relógio não bate mais, o quadro já não apaga e a goteira pinga sem parar. É hora de agir.
O que eu respiro já não importa mais. São as coisas que escrevo, sem nexo, sem sentido, sem dor. Minhas palavras não merecem atenção. São jogadas, são lavadas, são deixadas. Todas em vão.
O que eu sou importa muito. Meu tamanho, minha pequenez, minha saúde, meu vocabulário. Não te xingo, não te chamo, não choro por ti. Não te preciso, não questiono, não me zango.
O que eu quero importa demais. Minhas escolhas, minha forma de agir, minha forma de sentir, de expressar, de chorar, de sorrir.
Meu perfume, minha presença, minha voz, meus delírios, meus sonhos, meu mundo.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Na calda do doce
E eu que não sou lá muito íntima da cozinha, me coloquei no papel de doceira. Cortei as bananas, confirmei se tinha açúcar, cravo e canela, escolhi a panela e, mãos à obra!
No ritual da doceira não foi difícil entrar e, por várias vezes, me peguei buscando na memória quando foi que aprendi fazer isso, desse jeito, daquela forma. Era como se uma chavinha dentro de mim tivesse ligado no meu piloto automático. Mas, espera ai! Se nunca me ensinaram, então como é que eu sei? Talvez meus olhos de menina observadora tenham registrado lá no subconsciente.
Enquanto eu 'mexia o doce', lembrei das minhas ancentrais: minha vó Diva, minha madrinha, minha tia Mazé. E, de uma hora pra outra, eu era cada uma delas ali, concentrada na calda do doce, pensando nas coisas da vida, no dia a dia, na vida sem internet, violência e Michel Jackson. Pensei no que eu ia fazer pro almoço de amanhã, olhei pro meu vestido de algodão estampado com florzinhas, pensei no meu marido que tinha saído pra trabalhar, voltei o pensamento pro agora e perguntei se o pote de vidro estava seco pra receber o doce, se eu enviar de presente pra alguma comadre. E o pensamento voava enquanto a calda fervia.
Nesse momento, vi meu elo de ligação com a família dos Fontes (os doceiros), reconheci ali, na minha frente, a nossa máquina do tempo: a calda do doce. Eu carrego todas elas, suas angustias, suas expectativas, seus sonhos, suas preocupações, sua vida. Sim, elas vivem comigo mas é só quando as convido para cozinhar comigo. Minha vida já tem muito de mim.