segunda-feira, 22 de junho de 2009
saudade é coisa boa
Sentir saudade é como desejar controlar as águas de um rio, daqueles que fluem com força. Ninguem tem poder pra isso. Usar o racional é perda de tempo. (deixe fluir, dizem as pedras.)
Sentir saudade é como se um radinho estivesse ligado o tempo todo dentro da gente, contando histórias que já se foram, lembrando tempos que já não voltam mais. Mesmo que eu tente desligar, o botão não funciona, a pilha não acaba e as sensações brotam novamente.
Saudade é um sentimento que me faz pensar que sempre que estive presente, de corpo e alma, ficou registrado algo bom dentro de mim (e no outro, quem sabe). Minha vontade de segurar esses momentos, encapsular e cristalizar é meu ato de sofrimento. Inútil.
Se, ao inves disso, eu conseguisse fechar meus olhos, sentir, respirar, agradecer e soltar, estaria mais aberta pras novas emoções. Mas, eu prefiro escutar as pedras: "deixa fluir, deixa fluir..."
domingo, 21 de junho de 2009
uma outra em mim


Pra que eu não me assuste e pra ela nunca se vá, aceitei que essa mulher que vejo aqui em casa com capa e capuz de bruxa, mago ou feiticeira, sou eu mesma, com minha vasta e profunda experiência de vida(s). Ela me ensina a me curar, me remete a minha voz interior e me reconhece como uma grande guerreira, lutadora e vitoriosa.
Essa mulher me dá forças. Ouço seus ensinamentos e fico calada, bem calada, concordando com a cabeça. Não me assusto com seus sussuros e, de uma certa forma, estou quieta pra que ela não se assuste com o tamanho dos meus medos e inseguranças e suma daqui de repente e pra sempre.
(shhhhhh... lá vem ela!)
terça-feira, 16 de junho de 2009
águas de chuva
Se for verdade que depois da tempestade vem a bonança, então eu pergunto se amanhã será um dia de sol. Às vezes, o sol também me ajuda a florescer. Mas amanhã é outro dia e eu não sou mais a mesma.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Arrastões emocionais
É engraçado como ela buscava esse sentimento de pertencimento como se um peixe precisasse por a cabeça pra fora pra ter certeza que pertence ao reino das águas. Ela também precisava sentir parte da vida, pelo menos, da sua própria vida.
Por isso, tirava horas do dia quieta, com a mão na boca do estômago e os olhos voltados pra algum canto no alto da sala. Queria achar a conexão entre suas entranhas e a vida lá fora.
Esquisita, diriam. Mas ela não se importava. 'Esquisito é esse povo que vai fazendo as coisas sem se dar conta, que deixa a vida passar e que permite que os outros façam escolhas por eles'.
Depois de alguns dias no meio desse turbilhão de sentimentos, conscientizou (de uma hora pra outra) que ela estava no meio de uma forte correnteza com águas fortes, movimentos rápidos. Seu corpo e alma eram arrastados sem tempo pra segurar em nada. Nada adiantava. Essa vontade de ficar quieta era um desejo de se agarrar a algo conhecido.
Tarde demais. Quando a gente tem que mudar de estação, não adianta agarrar nas colunas do grande salão. Solte a mão e deixe fluir. Feche os olhos e deixe-se levar.
Ainda bem que ela confia no fluxo da vida.
domingo, 7 de junho de 2009
um par sem lado
Eu perdi um lado do meu sapato.
Ele era vermelho, estilo boneca, de boa qualidade.
E olha que eu gostava bastante dele, tinha estilo, era contemporâneo, arrojado, apesar que, às vezes, apertava minha joanete.
Não perdi muito tempo pensando, voltei imediatamente ao proposto lugar da perda. Você sabe, eu não gosto de sentir falta, saudade. Nem pensei em provocar meu coração. Por isso fui procurá-lo logo.
Retornei e lá estava ele, no mesmo lugar, sozinho, parado, largado. Fiquei chocada quando vi que passei com o pneu do carro por cima, sem percebe-lo. Perdão, te gosto muito! Você não fez por merecer tamanha insensibilidade!
Mas, de repente, uma surpresa, uma novidade, algo inesperado; meu sapato, encontrado destraído no estacionamento, estava repleto de formigas vorazes (quem serão elas...) Não pude calça-lo como antes (e eu sempre querendo que as coisas sejam como sempre). Foi preciso limpar, acalmar os pequenos insetinhos.
Mas o sapato, que coisa, não quis virar par de novo. Ressentiu com o descaso. Guardou-se em si mesmo, perdeu a cor por mim. Desde então, não nos vimos novamente. Mas eu continuo gostando dele.

