E eu que não sou lá muito íntima da cozinha, me coloquei no papel de doceira. Cortei as bananas, confirmei se tinha açúcar, cravo e canela, escolhi a panela e, mãos à obra!
No ritual da doceira não foi difícil entrar e, por várias vezes, me peguei buscando na memória quando foi que aprendi fazer isso, desse jeito, daquela forma. Era como se uma chavinha dentro de mim tivesse ligado no meu piloto automático. Mas, espera ai! Se nunca me ensinaram, então como é que eu sei? Talvez meus olhos de menina observadora tenham registrado lá no subconsciente.
Enquanto eu 'mexia o doce', lembrei das minhas ancentrais: minha vó Diva, minha madrinha, minha tia Mazé. E, de uma hora pra outra, eu era cada uma delas ali, concentrada na calda do doce, pensando nas coisas da vida, no dia a dia, na vida sem internet, violência e Michel Jackson. Pensei no que eu ia fazer pro almoço de amanhã, olhei pro meu vestido de algodão estampado com florzinhas, pensei no meu marido que tinha saído pra trabalhar, voltei o pensamento pro agora e perguntei se o pote de vidro estava seco pra receber o doce, se eu enviar de presente pra alguma comadre. E o pensamento voava enquanto a calda fervia.
Nesse momento, vi meu elo de ligação com a família dos Fontes (os doceiros), reconheci ali, na minha frente, a nossa máquina do tempo: a calda do doce. Eu carrego todas elas, suas angustias, suas expectativas, seus sonhos, suas preocupações, sua vida. Sim, elas vivem comigo mas é só quando as convido para cozinhar comigo. Minha vida já tem muito de mim.
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